Se uma biografia pudesse ser escrita com uma única frase, a dela seria esta: delegada Martha Rocha, a primeira mulher na história a chefiar a Polícia Civil do Rio de Janeiro. Mas numa linha não cabe a trajetória de vida da menina, nascida em 1959, que passou a infância na Penha, bairro do subúrbio do Rio, onde se instalaram seus pais portugueses, vindos de uma aldeia de Trás-dos-Montes.

A menina Martha, que fez primeira-comunhão, se tornou devota de Nossa Senhora, cresceu e se formou professora, entraria para a polícia aos 23 anos, derrubaria muros erguidos num ambiente profissional, até então, predominantemente masculino, quebraria o recorde de permanência no cargo de Chefe da Polícia Civil e viraria referência nacional no combate à violência contra mulher.

A filha do padeiro que jamais teve uma boneca – no Natal, o pai priorizava o investimento dos parcos recursos em presentes úteis para os seus três filhos, como roupas e sapatos – cursou o Instituto de Educação e lecionou alguns anos para alunos do antigo primário (hoje, ensino fundamental).

Em 1983, passou no concurso público e foi trabalhar como escrivã de polícia na 4ª DP, na Praça da República, no Centro, onde não havia banheiro feminino. Começava ali a sua luta pela garantia dos direitos da mulher: após a sua perseverança, o toilette foi instalado.

Sete anos depois, já graduada bacharel em direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), se tornou delegada. Passou por várias unidades e participou decisivamente do projeto de criação das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs).

No decorrer de sua vida profissional, recebeu diversas condecorações, em reconhecimento ao seu empenho na luta pelos direitos da mulher, sobre os quais escreveu inúmeros artigos e a cartilha “Violência contra a Mulher – Um guia prático para prevenir, punir e erradicar a violência contra as mulheres”. O trabalho foi produzido pela Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ).

São de sua autoria dois capítulos do “Dossiê Mulher”, elaborado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP). Contribuiu para a elaboração do livro “Mulheres da Baixada Fluminense”, uma parceria entre o Conselho Estadual dos Direitos da Mulher (CEDIM) e a PETROBRÁS. Foi integrante da Comissão de Segurança Pública da Mulher.

Em 1993, com apenas três anos no cargo de delegada e um ano após ter sido vice-presidente da Comissão da Segurança Pública da RIO 92, Martha atingiu o seu primeiro feito inédito. Para a contrariedade dos delegados que a ela ficariam subordinados, se tornou, aos 33 anos, a primeira mulher a chefiar o Departamento Geral de Polícia Especializada (DGPE).

O órgão coordenava todas as delegacias especializadas, como, por exemplo, as de combate ao tráfico de drogas, ao roubo a banco e ao sequestro. Os homens ameaçaram entregar os seus cargos, mas acabaram permanecendo nos seus postos, sob o comando da delegada Martha Rocha.

Um ano depois, o impacto foi um pouco menor ao depararem com um estojo de maquiagem sobre a mesa do Corregedor da Polícia Civil. Martha Rocha, mais uma vez, rompia barreiras e se tornava a primeira mulher a ocupar a cadeira, na qual, até então, somente homens haviam sentado.

A sua trajetória era ascendente. Em 1999, assumiu o posto de Sub-Chefe da Polícia Civil, o segundo na hierarquia da instituição. Em 2009, foi nomeada para o cargo de diretora da Divisão de Polícia de Atendimento à Mulher (DPAM), onde ficou até fevereiro de 2011, quando entrou para a história como a primeira mulher a assumir a Chefia da Polícia Civil.

Sua gestão ficou marcada, principalmente, pela criação da Cidade da Polícia, a retirada de circulação dos principais criminosos do estado, a melhoria do atendimento ao público nas delegacias, a intensificação das ações de prevenção à violência contra a mulher e a ampliação do serviço de registro de ocorrência online.

Muitos dos principais traficantes retirados das ruas foram capturados, inclusive em outros estados, sem que a polícia precisasse disparar um único tiro. Fabiano Atanázio da Silva, o “FB”, Luís Fernando Nascimento Ferreira, o “Nando Bacalhau”, Alan Ferreira Montenegro, o “Da Lua”, Regis Eduardo Batista, o “RG”, Paulo Rogério de Souza Paz, o “Mica”, e Lúcio Mauro Carneiro dos Passos, o “Biscoito”, encabeçam a lista.

Na sua administração, Martha Rocha, além de otimizar o trabalho de prevenção à violência contra a mulher, intensificou as ações de combate ao contrabando, à pirataria e à contravenção, instituindo portarias e resoluções para coibir os jogos de azar.

Sua formação acadêmica inclui especialização em Direitos Humanos na Universidade Cândido Mendes e, também, no Curso Superior de Polícia ministrado pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ).

Martha Rocha tem pós-graduação em Direito Penal e Processo Penal pela Universidade Estácio de Sá, como também em Administração Pública pela UERJ e pela Escola de Políticas Públicas e de Governo da UFRJ.

A delegada também acumula experiências internacionais. Participou em Quito, no Equador da Conferência sobre Segurança Pública. Acompanhou em Washington (EUA) a Conferência sobre Desenvolvimento e Violência contra a Mulher, promovida pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Participou do Encontro com parlamentares do Timor Leste, organizado pelo CEDIM para apresentar experiências que culminaram na reconstrução daquele país.

Foi palestrante do Seminário “Direito Regional da América Latina e Caribe sobre Direitos Reprodutivos e Violência Contra Mulher”, organizado pela Cidadania, Ensino, Pesquisa, Informação e Ação (CEPIA) e Society for International Development (SID).

Atuou no “III Seminários sobre Juizado de Violência Doméstica e divulgação da Rede de Apoio às Mulheres Vítimas”, realizado pela Escola de Magistratura do Rio de Janeiro (EMERJ).

Em outubro de 2014 realizou outro grande sonho. Foi eleita deputada estadual com 52.698 votos pelo Partido Social Democrático (PSD) e começou uma nova batalha, dessa vez na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. Segurança Pública e combate à violência contra as mulheres estão entre as prioridades do mandato. Na Alerj, assumiu a presidência da Comissão de Segurança Pública e Assuntos de Polícia e a CPI da Violência Contra às Mulheres. Também é membro das comissões de Direitos Humanos, das Mulheres, de Cultura e Ética e Decoro Parlamentar.

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